Aqui posto de comando do Movimento das Palavras Armadas.

sexta-feira, junho 19, 2009

Entrei no café com um rio na algibeira




Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir dum destino.


José Gomes Ferreira



José Gomes Ferreira imortalizou-se no campo da Literatura Portuguesa nas áreas da Poesia e da Prosa. Pertenceu à geração do Novo Cancioneiro, com evidentes influências surrealistas, simbolistas, e sobretudo neo-realistas. A sua voz de protesto contra o mundo desconcertante, opressor, e simultaneamente monótono, do seu tempo, fez dele um "poeta militante" intemporal, trilhando caminhos já muitas vezes trilhados, mas nunca exactamente os mesmos.
A sua mensagem, sempre actual, é a vivência real de um homem e autor com os cinco sentidos despertos para tudo o que o rodeia, colocando o seu individualismo ao serviço da urgência do social. A sua vasta obra reflecte este seu desejo de mudar esse Mundo, o que acredita fazer com o poder da palavra.

quinta-feira, junho 18, 2009

Nós, os portugueses…

Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.
Lá vai o português, lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio - índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea de sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.
No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma podia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu com muita honra. E nisso não é como o coral que faz pé-firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda.
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? É claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.
Assim, como?


José Cardoso Pires, in álbum de fotografias Gentes, de Eduardo Gageiro

quarta-feira, junho 17, 2009

Mark Rothko - blue

Do tempo passado,
ainda que a medo,
reservo uma secreta esperança
na memória das coisas.
Há em mim
uma procura para lá dos limites do possível,
num olhar feito de silêncio,
num calmo entardecer,
sobre a praia dos Olhos d’Água,
reunindo a força dos elementos
sobre a areia, as rochas e o mar,
e eu, uno e diverso,
ouvindo a música de Leonard Cohen
distribuindo-se pelas falésias,
com o tempo esquivando-se pelo meus dedos.


alfa

terça-feira, junho 16, 2009

Ferdinand Hodler

Ferdinand Hodler, O lenhador, 1910, óleo sobre tela, Museu d’Orsay, Paris





Em Abril de 1908, o Banco Nacional Suíço confiou a Ferdinand Hodler a ilustração das novas notas de 50 e 100 francos, devendo o motivo escolhido relacionar-se com o trabalho da terra. Para as notas de 50 francos, Hodler escolheu o tema do lenhador.
A composição estrutura-se na conjugação e equilíbrio das linhas de força - as verticais dos troncos e a diagonal do corpo do lenhador. O preciso momento em que o trabalhador ergue firmemente o machado é acompanhado pela vigorosa expressão corporal em aparente desequilíbrio sustentado pelo jogo subtil dos pés. Todo o corpo se ergue em esforço e o rosto inclina-se em contrapeso, fixando a linha de corte da árvore.
Hodler captou magistralmente a energia do movimento do lenhador e fixou a tensão de um instante. Não existem outros exemplos de uma tal sugestão do gesto de um camponês, imortalizado em pleno trabalho e transformado em figura heróica, a não ser nas pinturas de Millet.
O fundo esbranqueado e a linha do horizonte baixa exaltam magnificamente a figura quase sobre-humana do lenhador. Esta destaca-se claramente sobre o céu, que adquire maior relevo graças à forma ovalada cinza azulada de uma estranha nuvem. Esta grande figura de Hodler, que se encontra a meio caminho entre o simbolismo e o expressionismo, é absolutamente representativa da última fase da obra deste artista.





céujaime

segunda-feira, junho 15, 2009

"Home - O Mundo é a Nossa Casa"



França



Ano: 2009




Género:
Documentário




Duração: 120m




Realização:
Yann Arthus-Bertrand






Em 200 mil anos na Terra, a Humanidade tem perturbado o equilíbrio do planeta, estabelecido por quase 4 biliões de anos de evolução. O preço a pagar é alto, mas é tarde demais para ser pessimista: a Humanidade tem apenas 10 anos para inverter esta tendência e tornar-se consciente da extensão total da destruição da Terra e alterar os seus modelos de consumo. Yann Arthus-Bertrand, o realizador, traz-nos imagens aéreas únicas de mais de 50 países para partilhando esperanças e receios num filme que lança a primeira pedra do edifício que, todos juntos, teremos de reconstruir.









Para ver o documentário clique aqui


Credo

Diego Rivera, La Molendera



Creio no capital que governa a matéria e o espírito.

Creio no lucro, seu tão legítimo filho, e no crédito, o Espírito-Santo, que dele procede e com ele é adorado.

Creio no Ouro e na Prata, os quais, torturados na Casa da Moeda, fundidos nos cadinhos e martelados nas máquinas, reaparecem ao mundo como moeda legal; e que, depois de circularem por toda a terra, descem às caves do banco para ressuscitar como Papel-Moeda.

Creio no juro de cinco por cento, de quatro ou três por cento e na Cotação real dos valores.

Creio no Grande Livro da Dívida Pública, que protege o Capital dos riscos do Comércio, da Indústria e da Usura.

Creio na Propriedade individual, fruto do trabalho dos outros e na sua continuidade até ao fim dos séculos.

Creio na necessidade da Miséria, fonte dos assalariados e mãe do sobretrabalho.

Creio na Eternidade do Salariato, que livra o trabalhador das preocupações da propriedade.

Creio no prolongamento do dia de trabalho e na redução dos salários e também na falsificação dos produtos.

Creio no dogma sagrado: COMPRAR BARATO E VENDER CARO. E, do mesmo modo, creio nos princípios eternos da nossa Santa Igreja, a Economia política oficial. Amém.

Paul Lafargue, A Religião do Capital, jornal Le Socialiste, 1886

quarta-feira, junho 10, 2009

Cinema Paradiso (Cinema Paraíso)

Realização de Giuseppe Tornatore, com Philippe Noiret, Jacques Perrin, Salvatore Cascio, Agnesese Nano, Isa Danieli e Antonella Attili, produção franco-italiana.

O pequeno Salvatore, de alcunha Toto, vive durante os anos do após-2ª Guerra Mundial numa aldeia siciliana.

Salvatore ocupa parte significativa do seu tempo no cinema, no Largo da aldeia, onde se torna grande amigo do projeccionista Alfredo.

Mais tarde, tornando-se projeccionista, desencadeia uma revolução local ao projectar, pela primeira vez, um filme não censurado.

É uma história, simultaneamente, cómica e melancólica, satírica e nostálgica, que tem fascinado sucessivas gerações pela sensibilidade com que aborda as emoções humanas e o desejo de realização pessoal.

O filme referindo-se a um tempo e espaço específicos, pela análise psicológica e social dos seus personagens adquire uma dimensão intemporal mantendo a sua actualidade e pertinência. Ainda que aqui, em Cuba (ou em Faro do Alentejo…), e agora, em 2009.

O filme confronta-nos com a solidão e o imobilismo de uma aldeia siciliana das décadas de 1940 e 1950 e a brutal transformação, urbana, social e cultural, que se verificou a partir dos anos 60.

A abordagem individual ou social é profundamente intimista, dramática ou irónica, ao mesmo tempo que a própria evolução do filme nos coloca como espectadores do percurso pessoal de um conjunto de intervenientes.

O tempo que nos cabe viver é substancialmente diferente. A mobilidade social, a facilidade das comunicações, as novas tecnologias e a democratização da escolaridade, por exemplo, diferenciam profundamente a época abordada no filme e os dias que, velozmente, nos escorregam entre os dedos.

No entanto, há aspectos da condição humana que persistem: a procura da felicidade pessoal e da realização profissional permanecem como elementos centrais da vida de cada um de nós.

Acontece, que, por vezes, o caminho é demasiado escarpado e estreito para subir tão difícil montanha!


alfa

terça-feira, junho 09, 2009

O cante alentejano

É difícil imaginar no Alentejo o entardecer bucólico com sinos a badalar ave-marias. No Alentejo o som dos bronzes quase só anuncia funerais. A terra é tão áspera que se não comove com o pôr do Sol. Pelo contrário: geme então, lambendo as feridas rasgadas por um sol de dentes afiados. É quando despega então um cantar magoado, como se temesse haver nada para lá da noite que chega.

É um cantar a dar conta do homem e do seu mundo. Um mundo vacilante e frágil, entre o desejo de ficar e a vontade de partir. Como o Alentejo: preso à raiz e forçado a voar, se quiser sobreviver.

O Alentejo canta em coro, como sempre o terá feito. Mas o grupo coral não é voz de uma solidão colectiva: é a adição de solidões individuais.

Nem o próprio cantar é uniforme. Tem altos e baixos. As vozes não soam todas ao mesmo tempo. Há um ponto, um alto, um baixo. Sons que se destacam no entoar da moda, que é a soma da letra com a musicalidade das vozes.

A moda evolui, como tudo. A moda nasceu dos despiques da taberna, em redor do copo de vinho, nos ranchos da ceifa e da monda. Nasceu ao anoitecer no regresso dos ceifeiros a casa. Rompeu com os primeiros raios do astro, a surpreender os ranchos vergados sobre o trigo quando o trabalho se fazia "de sol a sol".

O cante retrata a solidão e a tristeza. O amor e o trabalho. A alegria. O sol e a terra. O suor. Canta o trigo e as cegonhas. A emigração e a barragem de Alqueva. Canta a morte e a vida. Angústias e sonhos. Canta o homem perdido em inalcançáveis longitudes. É terno e quente. Ingénuo e grave. Sóbrio e triste. Solene como uma catedral. E, como ela, eleva-se da terra, atingindo alturas tais que se mistura com o lamento dos descampados, não se sabendo já se são criaturas ou os próprios plainos que assim gemem.

Vem com a lua e com ela atravessa os ares. Temeroso, talvez, de o sol não voltar a nascer.
Pedro Ferro, Descubra Portugal

segunda-feira, junho 08, 2009

UTOPIA TRIUNFA EM MARINALEDA

Uma casa nova individual, de 90 m2 e com 100 m2 de pátio, que num bairro operário de Madrid custaria pelo menos 400.000 euros, com uma hipoteca mensal de uns 2.000 durante 30 anos, e um sonho ao alcance de qualquer habitante de Marinaleda, por um preço simbólico de 15 euros por mês! "É a utopia feita realidade!", lança Sanchez Gordillo, que desde 1979 cumula na pequena povoação andaluza as funções de professor e de presidente da Câmara. "Segundo a Constituição, todo cidadão tem direito a uma casa digna. E é isso que fazemos aqui. Com apenas 2.600 habitantes, Marinaleda vive do trabalho do campo, todos cobramos o mesmo salário de 45 euros diários, mas desde 1981 já construímos 350 casas subvencionadas, iguais a esta onde vivo, e temos outras 120 em construção ou previstas até 2010". Homem de luta e de ideias revolucionárias, Gordillo recorre por vezes à "greve da fome" para obrigar a Junta (governo andaluz) a financiar o desenvolvimento de Marinaleda e não esconde o segredo da sua "poção mágica". "Património do povo, a terra não se compra nem se vende!", diz ele. A Câmara tem assim uns 400.000 m2 de solo urbanizado à disposição da população, à qual também oferece gratuitamente os serviços do arquitecto municipal, o que representa 60% do custo da obra, enquanto a Junta financia os materiais (uns 30.000 euros por casa). Tratando-se de um modelo de "autoconstrução", os futuros proprietários devem trabalhar na obra, ou contratar os especialistas necessários, pagando-lhes 45 euros diários. "Com esta fórmula, cada família só pagara uma letra de 15 euros por mês, mas durante 80, 90 ou 100 anos, para obter o titulo de propriedade", explica Gordillo, que se declara ao Expresso "nacionalista, de esquerda, anti-capitalista, ecologista, pacifista e mais utópico do que nunca".


in
jornal expresso, 8 de março 2008

Esta semana tive acesso à história deste oásis Socialista no meio da Península Ibérica, através da revista Visão. Aconselho a sua leitura e a visita ao site de marinaleda.


Oração Dominical

Diego Riviera, La Noche de Los Pobres


Capital, Pai nosso, que estais na terra, Deus Todo-Poderoso, que mudais o curso dos rios e ergueis montanhas, que reparais os continentes e unis as nações; criador das mercadorias e fonte de vida, que governais os reis e os servos, os patrões e os assalariados, que o vosso reino se estabeleça em toda a Terra.

Dai-nos muitos compradores para as nossas mercadorias, sejam elas más ou boas.

Dai-nos trabalhadores miseráveis que aceitem sem revolta todos os trabalhos e se contentem com o mais vil dos salários.

Dai-nos todos que acreditem nas nossas promessas.

Fazei com que os nossos devedores paguem integralmente as suas dívidas e que os bancos descontem as nossas letras.

Fazei com que a prisão de Mazas (2) nunca se abra para nós e afastai para longe a falência.

Concedei-nos rendimentos perpétuos. Amém.

Paul Lafargue, A Religião do Capital, jornal Le Socialiste, 1886

2) O banqueiro Mirés, símbolo da especulação do Segundo Império, foi aí encarcerado em 1861. Viria a ser destruída em 1898.



domingo, junho 07, 2009

Política vs Personalidade

A política é uma forma de mudarmos o mundo, porém, ela também nos muda. Passamos a olhar para as pessoas de maneira diferente. A política revela-nos o melhor e o pior das pessoas. Começamos a perceber que algumas pessoas têm duas caras, que se relacionam apenas com base em interesses próprios. A política não é, nem devia ser uma batalha mas a verdade é que não há quem perceba que se pode ter opiniões contrárias e apesar disso manter relações de amizade. A política, independentemente da nossa vontade modela-nos a personalidade. Fica-se mais apreensivo nas relações sociais que estabelecemos, passa-se a duvidar muito mais das pessoas. Leva-se mais tempo a abrir às pessoas e muitas vezes fazem-se análises de personalidade das pessoas que nos rodeiam. Estar na política que é feita hoje em dia não é fácil, é preciso ter estrutura psíquica e estrutura familiar para aguentar alguns momentos em que o pior da política emerge. Essa estrutura consegue-se com uma grande capacidade de abstracção de que não se é capaz de imediato. Não é fácil estar na política, porque a forma de a fazer afasta os bons políticos, mas há que ser persistente. Há 12 anos que estou na política, se já me fartei em algum momento!? Já, já me fartei. Se já pensei em deixar a política!? Já, já pensei. Não porque não tenha estrutura, mas por outro tipo de razões. Nunca o fiz, não sei se o farei. Até acho que é impossível sair da política.
Há que conseguir essa estrutura, aumentado a capacidade de abstracção em relação à política suja do boato e do diz que disse.... Sair da política por estas razões é perder para quem a faz.

sábado, junho 06, 2009

Vota CDU!


sexta-feira, junho 05, 2009

Quem mais trabalhou no Parlamento Europeu!?

Basta entrar neste site (...) e logo surge Ilda Figueiredo à frente da classificação dos 26 deputados portugueses. Em segundo lugar vem Paulo Casaca, do PS, e logo a seguir Pedro Guerreiro, o segundo deputado do PCP que assumiu funções em Janeiro de 2005, ou seja seis meses depois do início do mandato.O site parlorama.eu definiu três tipos de avaliação: uma nota de assiduidade, que revela a presença nas sessões plenárias; outra, de actividade, que resulta de uma mediana de vários indicadores, designadamente número de relatórios, pareceres, questões escritas, orais, propostas de resolução, declarações escritas e intervenções; e por fim uma nota geral determinada pelo cálculo da actividade (coeficiente 2) e a assiduidade (coeficiente 1).Ambos os deputados do PCP obtiveram a nota máxima geral (cinco estrelas), a qual foi merecida apenas por cinco deputados portugueses.Na avaliação por actividade, Ilda Figueiredo volta a ser a melhor deputada à frente de Ana Gomes (PS) e Paulo Casaca (PS), surgindo em quarto lugar Pedro Guerreiro.Por último, no critério da assiduidade, Ilda Figueiredo que esteve em 279 sessões plenárias é classificada em 9.º lugar e Pedro Guerreiro em 11.º lugar, com 253 presenças registadas para um máximo de 298.

O capital cultural do Homem e a nossa Casa Comum

O capital cultural do Homem constitui um património colectivo, resultante de um processo dinâmico de desenvolvimento em determinado(s) tempo(s) e lugar(es). Este capital cultural acrescenta-se através da interiorização, da aprendizagem, da criatividade individual e colectiva e pelo intercâmbio das ideias e das técnicas.

Numa época caracterizada, simultaneamente, por diferentes ritmos de desenvolvimento económico e tecnológico e pela mundialização da informação, a substituição de um comportamento autista e isolacionista por uma atitude universalista determinada pela mediação e pela partilha, favorece a interacção e a inserção dos vários grupos socioculturais no macrocosmos, na aldeia global, na casa comum, produto milenar da aventura humana.

As continuidades políticas ou culturais, sociais ou económicas, não se medem já em períodos de séculos, mas em decénios ou anos. Muitas referências perdem relevância intergeracional.

Assim, é essencial neste tempo caracterizado pela mobilidade alargada de pessoas, mercadorias, capitais e ideias, pela mundialização dos interesses e das trocas e pela efectiva influência mútua e interdependência mundial, reflectir sobre a produção cultural do homem, todo um processo milenar de ruptura e de progresso, de conflito e de intercâmbio, de permanência e de transformação, afinal a herança e o testemunho de todos os homens e civilizações.

alfa

quinta-feira, junho 04, 2009

Millet


Jean-François Millet (1814-1875) As Respigadeiras, 1857, Óleo sobre tela, Paris, Museu d'Orsay

doação sob reserva de Madameme Pommery, 1890



Com Jean-François Millet, os camponeses fazem a sua entrada na pintura naturalista francesa do século XIX, já não como evocadores de um mundo de simplicidade e de inocência, mas como homens autênticos, com a sua energia física e a sua força social.

A dura vida dos camponeses do século XIX constituem o campo de investigação do objecto artístico em Jean-François Millet.

Nesta obra, as mulheres encarnam a miséria do proletariado rural. Estas mulheres são autorizadas a passar rapidamente, antes do pôr-do-sol, pelos campos ceifados para recolher algumas espigas abandonadas.

A pintura representa três respigadeiras em primeiro plano, dolorosamente curvadas e de olhar fixo no solo. Combina a três fases do repetitivo e esgotante movimento que impõe esta tarefa: agachar-se, recolher e levantar-se.

A luz rasante do sol poente marca os volumes do primeiro plano e dá às respigadeiras formas esculturais. Sobressai a vivacidade das suas mãos, nucas, ombros e costas, avivando a cor das suas roupas.

Depois, lentamente, Millet vai esbatendo a distância, produzindo uma atmosfera dourada e poeirenta, intensificando a impressão bucólica do fundo do quadro.

A personagem a cavalo, colocado à direita da composição é seguramente o capataz, encarregado de vigiar os trabalhos da herdade, fazendo com que as respigadeiras cumpram as regras ligadas à sua actividade. Também está presente a diferenciação social, recordando a existência distante dos grandes proprietários.

Através de processos plásticos simples e sóbrios, Millet outorga a estas camponesas, sem dúvida pobres, porém não menos dignas, um valor emblemático, depurado de qualquer miserabilismo.

quarta-feira, junho 03, 2009

Rita Carmo

Koop em Lisboa 2006





Rita Carmo (n.1970, Leiria) é licenciada em Design de Comunicação pela ESBAL. Fotógrafa residente do jornal Blitz desde 1992. Tem fotografias editadas no Expresso, Visão, Ler, DIF…; Melody Maker, Daily Mail (Reino Unido), Rockin’On e Snoozer Mag (Japão), Bizz (Brasil). Em 1995 forma a dupla Espanta Espíritos com António Afonso. Em 1999, é um dos 5 fotógrafos presentes na Fotobiografia dos 20 anos dos Xutos & Pontapés. Em 2003 é autora dos retratos dos 15 Criadores de Moda no livro “15 Histórias de Hábitos” de Cristina L. Duarte (Ed.Quimera e ainda edita pela Assírio & Alvim o álbum fotográfico “altas-luzes”, onde reúne cerca de 200 imagens que retratam momentos únicos da história das actuações ao vivo em Portugal e de sessões fotográficas com artistas. Desta edição resultou uma exposição que já esteve patente em Lisboa, Porto, Gaia, Leiria, Bragança, Fundão, Aveiro, Évora, Moita, Azambuja, Santarém, Palmela, Castelo Branco, Coimbra, Cáceres, Tomar e Espinho. Em Junho de 2005, a convite da Alcatel Portugal e da Numero, expõe no 4ºFestival Portugais no Fnac Forum Les Halles em Paris. Em 2008, no âmbito do Congresso Feminista 2008, expõe na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.



Para aceder a algumas imagens do seu trabalho basta clicar aqui, neste seu blogue encontrará a indicação de outros blogues da artista, de produções suas ao vivo. É só disfrutar...

terça-feira, junho 02, 2009

PCP no Parlamento Europeu...



Para saber mais clicar no gráfico acima

Histórias marginais


Quando a aldeia de Baleizão foi electrificada, as mulheres opuseram-se: os fios estavam tão altos que não davam para estender a roupa.




Histórias como esta há muitas por todo o Alentejo. Marginais à História, elas retratam identidades locais. Pode perceber-se que Messejana (Aljustrel) possa ter sido praia, lá na distância temporal de uma obscura idade geológica. Mas que a cada momento o façam lembrar aos naturais da terra, é graça que já enjoa às próprias pedras.




Sempre que Messejana vem à baila lá está a gracinha da praia. Assunto tabu na vila. Os naturais arrepelam os cabelos sempre que Ihes falam da praia.




A praia de Messejana é matriz para outras histórias do género. Assim, quando a Câmara de Aljustrel ali resolveu construir um depósito de água logo alguém anónimo sugeriu que se tratava de um farol. E junto ao cruzeiro em pedra à entrada da vila dizem ter naufragado Vasco da Gama, numa das suas viagens marítimas à Índia. Mais: em Messejana o marisco é apascentado como os rebanhos de ovelhas e vai-se à pesca usando um fardo de palha como isco.




Piadas a que Messejana não acha graça nenhuma. A maior parte delas é produzida pelos vizinhos de Aljustrel, inchados talvez por Messejana ter mais pergaminhos históricos para apresentar do que a povoação mineira.




Os de Santa Vitória têm fama de “engenheiros”. A aristocracia local, para mostrar obra e engrandecer a terra, exigiu um dia da Câmara ou do Governo – as versões mudam – a construção de uma ponte. Santa Vitória precisava de uma ponte – obra que se visse e não envergonhasse ninguém. “Homem para que querem vocês uma ponte se não têm rio?”, exclamaram espantados os homens da Câmara, ou do Governo. Resposta da rapaziada de Santa Vitória: “Façam lá a ponte que do rio tratamos nós”. Ficaram os “engenheiros”.




Aos de Vila de Frades chamam os da Vidigueira "farrapeiros". Quer dizer: vestidos de farrapos miseráveis, pelintras. É a dor de cotovelo que os faz falar: Vila de Frades foi sede de concelho antes da Vidigueira saber que nome tinha. Os de Vila de Frades devolvem-lhes os mimos chamando aos da Vidigueira "larga o osso". É que, em tempos, a Vidigueira se recusou a entregar a uma comissão vinda de Lisboa, as ossadas atribuídas a Vasco da Gama, que foi conde da vila e repousava no velho Convento do Carmo. O "larga o osso" ficou desde aí como um estigma, de que a Vidigueira nada gosta.







Pedro Ferro, jornal Público, 30 de Outubro de 1992

segunda-feira, junho 01, 2009

Há decisões sensíveis!

O caso Alexandra é um daqueles casos judiciais de difícil explicação do seu resultado. É difícil de compreender como é que é possível dois resultados tão díspares, como são os acórdãos de primeira e segunda instância. Não nos é possível julgar, apenas baseando-nos nas imagens emitidas pela televisão russa, porque correctivos toda a gente dá aos seus filhos. Choca-me mais o facto de ver uma criança ser retirada abruptamente de um meio social que sempre conheceu, para ficar num outro que nunca conheceu e que lhe é muito estranho. Falo não só da envolvência familiar, mas também da sociedade onde irá viver. Dirão que isso é uma coisa normal até porque acontece o mesmo com os filhos de emigrantes. É verdade, mas os filhos dos emigrantes têm normalmente uma família com a qual se identificam e onde vão buscar refúgio para encararem a nova realidade, coisa que esta miúda não parece ter. A opinião pública, na sua maioria, estará contra a decisão dos Juízes, porém, a opinião pública não tem os factos para decidir e por isso mesmo eu não vou comentar a decisão. Que ela me parece estranha, isso parece, até porque há uma contraditória anterior. Resta à Justiça explicar as suas decisões ao Povo não vá perder ainda mais a confiança deste.

A actualidade da Paul Lafargue mais de cem anos depois!...

“O Eleito do Capital: O capitalista é a lei. Os legisladores redigem os códigos segundo as suas conveniências e os filósofos ajustam a moral aos seus costumes. Todas as acções que pratica são justas e boas. Todo o acto que lesa os seus interesses é um crime e será punido.”

Paul Lafargue, A Religião do Capital, jornal Le Socialiste, em 27 de Fevereiro de 1886

Diego Rivera, A vendedora de flores