Aqui posto de comando do Movimento das Palavras Armadas.

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domingo, julho 12, 2009

A carteira do alentejano

Foto alfa – Para os lados da Nossa Senhora da Represa (Vila Ruiva-Cuba)




Muitos teimam em ver no Alentejo uma terra árida de religião, sem a capacidade da fé o chamamento do misticismo. É falso. O alentejano tem a fé dentro de uma carteira de plástico. O alentejano é o único ser do mundo que, sem conflitos existenciais e ideológicos, é capaz de trazer na carteira, ao lado do Bilhete de Identidade e da licença do rafeiro, o cartão do Partido Comunista e uma gravura de Nossa Senhora das Relíquias.

Abrir a carteira do alentejano é descobrir-lhe a própria alma. E desvendar-lhe as entranhas. Na carteira do homem das planícies está, como rã dissecada no mármore de bioquímico, a revelação de uma fé maior. O alentejano acredita "haver alguém a mandar nisto tudo" - e alarga o gesto a abraçar o mundo. Mas Deus não é para ele figura de altar. Deus é o que o alentejano sabe estar no crescimento do trigo e na fartura do azeite. Sóbrio em tudo, também na relação com o metafísico, o alentejano é avaro de exteriorização. Deus: questão que o alentejano tem consigo mesmo. O alentejano privatiza Deus, carrega, sem espectacu­laridades, uma religiosidade cósmica e, sobretudo, instintiva. Qualquer coisa que vem dos abismos do tempo.

Ironizava Manuel da Fonseca, nos anos 40, que os homens do Alentejo não entravam na igreja "só por serem obrigados a tirar o chapéu". O alentejano não sabe rezar, nem aprendeu a benzer-se. Em vez disso canta. A única missa a que os homens fazem questão de não faltar é a do Galo, na noite de Natal, mas só "para ouvir os cantores". Ainda pelo Natal, os alentejanos cantam "ao menino". Depois dele, vão de porta em porta cantar "os reis".

Manuel Ribeiro plantou no romance A Planície Heróica um padre a quem os paroquianos só pedem que "trate da sua courelazinha de trigo". Há alguns anos, em Serpa, a procissão fez-se sem padre. Em Beja, o bispo queixava-se ao Diário do Alentejo de ter "a mais pobre diocese do país". O seminário local está às moscas. Para a Igreja o Alentejo é ainda "terra de missão".

Mas os casais casam catolicamente e gostam de baptizar os filhos. Respeitam os santos, a Igreja e as suas manifestações. No entanto, recusam-se a "embarcar na conversa de padres". Ir à Igreja é "coisa de mulheres". E, mesmo estas, indo à missa mais do que meia dúzia de vezes por ano, passam a integrar o rol da "beatagem". O rebanho das "mal governadas", que, "em vez de tratarem da casa, não se tiram de baixo das saias dos santos". O maior azar de um marido, depois de mulher adúltera ou de "mau governo", é casar com uma beata.

Contudo, durante a guerra colonial, o Santuário da Senhora d'Aires, em Viana do Alentejo, encheu-se de ex-votos. A Nossa Senhora da Conceição recebe anualmente milhares de peregrinos em Vila Viçosa e os agricultores dos campos de Mértola e de Castro Verde acendem velas a Senhora de Aracelis, milagreira da chuva.

Há procissões em todas as aldeias. As mulheres integram o cortejo, com vestidos estreados, e os filhos, pela mão, trajados de anjinhos: os homens ficam aos cantos. Tiram o chapéu à passagem da padroeira e seguem depois o desfile atrás da música.

Por instintos que a história lavrou, o Alentejo desconfia da Igreja. Afinal, na lonjura dos séculos XII e XIII, o corcel cristão da chamada Reconquista deu à cruz a forma de uma espada. E, na centúria de seiscentos, a Inquisição de Évora foi, de todas, a que mais lenha juntou para os autos-de-fé. E ainda recentemente, durante o Estado Novo, a Igreja pouco terá feito para se demarcar dos velhos senhores das herdades e das vilas.

Pedro Ferro, in Público, 4 de Setembro de 1993



quarta-feira, julho 08, 2009

Porque sim!

Fazer da cal o bilhete de identidade. Comer o primeiro u de Augusto. Às Marias chamar Bias. Petiscar ao fim do dia. Acreditar em Deus e no Partido Comunista. São coisas de alentejanos.
Explicar Deus como “alguém que manda” nisto. Casar pela Igreja. Baptizar os filhos. Ser indiferente à missa. Não faltar à procissão. Desprezar a confissão. Cantar ao Menino pelos Reis. Chamar magana à morte. Dizer dos familiares que lhe morreram: “o meu pai que Deus tem” ou “a minha Joaquina que Deus tem”. Tirar o chapéu diante do cemitério. Temer as trovoadas como os gauleses do Astérix. Benzer o pão antes de entrar no forno. Não derramar azeita. São coisas de alentejanos.
Estar apaixonado quando está triste. “Andar atrás de” quando está apaixonado. Chamar boda ao casamento e ao copo d’água função. Anteceder os nomes dos filhos do pronome possessivo meu ou minha: o meu João, a minha Ana. Da mulher dizer apenas “a minha”, ignorando-lhe o nome. Não ter trambelho para os trabalhos domésticos. Enforcar-se quando se vê viúvo. São coisas de alentejanos.
Ver cair a geada. Chamar charoco ao frio e busaranho ao vento gelado. Dizer que está aspereza quando há temporal. Ao Sol chamar “o astro”, como se fosse o único no céu. Ao calor chamar calma. Viver com o Suão. Chamar às planuras descampados. Cerros aos outeiros. À floresta arvoredo.
Olhar o horizonte e saber ter vagar. Dizer: estou à espera de me ir embora. Declarar com solenidade: devagar que tenho pressa. Abalar no comboio da Cuba. A Lisboa chamar aldeia grande. Ter parentes na Brandoa. São coisas de alentejanos.
Estar de roda do lume. Sentar no chão para conversar. Parar no largo ao olhinho do sol. Ter sempre a navalhinha petisqueira no bolso das calças. Condutar o pão, o vinho e a vida. Beber só em companhia. Cantar quando os outros também cantam. À seca chamar desgraça. Querer a barragem de Alqueva. São coisas de alentejanos.
Porque sim!

Pedro Ferro, in Público, 9 de Outubro de 1995

terça-feira, junho 09, 2009

O cante alentejano

É difícil imaginar no Alentejo o entardecer bucólico com sinos a badalar ave-marias. No Alentejo o som dos bronzes quase só anuncia funerais. A terra é tão áspera que se não comove com o pôr do Sol. Pelo contrário: geme então, lambendo as feridas rasgadas por um sol de dentes afiados. É quando despega então um cantar magoado, como se temesse haver nada para lá da noite que chega.

É um cantar a dar conta do homem e do seu mundo. Um mundo vacilante e frágil, entre o desejo de ficar e a vontade de partir. Como o Alentejo: preso à raiz e forçado a voar, se quiser sobreviver.

O Alentejo canta em coro, como sempre o terá feito. Mas o grupo coral não é voz de uma solidão colectiva: é a adição de solidões individuais.

Nem o próprio cantar é uniforme. Tem altos e baixos. As vozes não soam todas ao mesmo tempo. Há um ponto, um alto, um baixo. Sons que se destacam no entoar da moda, que é a soma da letra com a musicalidade das vozes.

A moda evolui, como tudo. A moda nasceu dos despiques da taberna, em redor do copo de vinho, nos ranchos da ceifa e da monda. Nasceu ao anoitecer no regresso dos ceifeiros a casa. Rompeu com os primeiros raios do astro, a surpreender os ranchos vergados sobre o trigo quando o trabalho se fazia "de sol a sol".

O cante retrata a solidão e a tristeza. O amor e o trabalho. A alegria. O sol e a terra. O suor. Canta o trigo e as cegonhas. A emigração e a barragem de Alqueva. Canta a morte e a vida. Angústias e sonhos. Canta o homem perdido em inalcançáveis longitudes. É terno e quente. Ingénuo e grave. Sóbrio e triste. Solene como uma catedral. E, como ela, eleva-se da terra, atingindo alturas tais que se mistura com o lamento dos descampados, não se sabendo já se são criaturas ou os próprios plainos que assim gemem.

Vem com a lua e com ela atravessa os ares. Temeroso, talvez, de o sol não voltar a nascer.
Pedro Ferro, Descubra Portugal

terça-feira, junho 02, 2009

Histórias marginais


Quando a aldeia de Baleizão foi electrificada, as mulheres opuseram-se: os fios estavam tão altos que não davam para estender a roupa.




Histórias como esta há muitas por todo o Alentejo. Marginais à História, elas retratam identidades locais. Pode perceber-se que Messejana (Aljustrel) possa ter sido praia, lá na distância temporal de uma obscura idade geológica. Mas que a cada momento o façam lembrar aos naturais da terra, é graça que já enjoa às próprias pedras.




Sempre que Messejana vem à baila lá está a gracinha da praia. Assunto tabu na vila. Os naturais arrepelam os cabelos sempre que Ihes falam da praia.




A praia de Messejana é matriz para outras histórias do género. Assim, quando a Câmara de Aljustrel ali resolveu construir um depósito de água logo alguém anónimo sugeriu que se tratava de um farol. E junto ao cruzeiro em pedra à entrada da vila dizem ter naufragado Vasco da Gama, numa das suas viagens marítimas à Índia. Mais: em Messejana o marisco é apascentado como os rebanhos de ovelhas e vai-se à pesca usando um fardo de palha como isco.




Piadas a que Messejana não acha graça nenhuma. A maior parte delas é produzida pelos vizinhos de Aljustrel, inchados talvez por Messejana ter mais pergaminhos históricos para apresentar do que a povoação mineira.




Os de Santa Vitória têm fama de “engenheiros”. A aristocracia local, para mostrar obra e engrandecer a terra, exigiu um dia da Câmara ou do Governo – as versões mudam – a construção de uma ponte. Santa Vitória precisava de uma ponte – obra que se visse e não envergonhasse ninguém. “Homem para que querem vocês uma ponte se não têm rio?”, exclamaram espantados os homens da Câmara, ou do Governo. Resposta da rapaziada de Santa Vitória: “Façam lá a ponte que do rio tratamos nós”. Ficaram os “engenheiros”.




Aos de Vila de Frades chamam os da Vidigueira "farrapeiros". Quer dizer: vestidos de farrapos miseráveis, pelintras. É a dor de cotovelo que os faz falar: Vila de Frades foi sede de concelho antes da Vidigueira saber que nome tinha. Os de Vila de Frades devolvem-lhes os mimos chamando aos da Vidigueira "larga o osso". É que, em tempos, a Vidigueira se recusou a entregar a uma comissão vinda de Lisboa, as ossadas atribuídas a Vasco da Gama, que foi conde da vila e repousava no velho Convento do Carmo. O "larga o osso" ficou desde aí como um estigma, de que a Vidigueira nada gosta.







Pedro Ferro, jornal Público, 30 de Outubro de 1992

terça-feira, maio 26, 2009

Cal, solidão e orgulho

O sol incendeia a cal e esmaga-se na nudez alva das paredes. As casas estão assolapadas contra o solo. Recolhidas umas às outras como rebanho pela frega da calma. Tudo no Alentejo é horizontal: a terra, o montado de sobro e azinho, as searas, os montes, as aldeias, as vilas. Tudo. Só os homens são verticais, como as faias e os eucaliptos. Solitariamente altivos e graves. De uma gravidade olímpica.
Verticais e inteiros no modo de tratar o sol por tu. De lidar com ele como quem lida com a mulher e os filhos. O alentejano acende cigarros nos dedos do sol. O mesmo sol que para lá da penumbra de um postigo se passeia no largo da vila, tão livre, tão livre, como só um rei sem trono pode ser.
Rei sem trono é o alentejano. Tal qual o sol: a pagar em solidão o que em altivez lhe sobra.
Cada alentejano tem um eremita dentro de si. É uma natureza fechada. Orgulhosa. O silêncio esmaga gritos dentro do peito escancarados. Um ser sóbrio, altivo e solitário carregando aos ombros toda a tragédia que o mundo pode ter. É assim o fruto humano desta "charneca rude" que Florbela cantou. Dono de si próprio.
Alentejano: expressão concentrada de todas as matrizes que a solidão pode ter. Toda ela, toda a solidão do mundo, inteirinha no coração de um homem só, riscando nos descampados veredas que nenhum deus guiou. “Olhai o vagabundo que nada tem e leva o sol na algibeira!”, escreveu Manuel da Fonseca.




Pedro Ferro, Descubra Portugal.




foto alfa, “A caminho de Vila Alva…”

terça-feira, maio 19, 2009

O Largo

Mas o largo é, sobretudo, o poiso dos homens velhos. Juntam-se em grupos. Farejam todos os cantos do largo: no Inverno a perseguir o “olhinho de sol”, capaz de criar a ilusão de algum calor naqueles ossos secos como paus.
Todos os caminhos vão dar ao largo. As ruas nele desaguam. E as conversas. Os velhos olham e escutam. Murmuram. Os velhos falam por meias palavras. Comentam. Rosnam. Pregam sentenças. Acenam com as cabeças. Só as cabeças se movem nestas naturezas de azinho. O largo é um crivo social. Uma peneira moral. E os velhos um conselho de anciãos a medir com conhecimentos de vivência já com barbas, o pulso à vila e às suas gentes.


Pedro Ferro, Descubra Portugal

terça-feira, maio 12, 2009

Pedro Ferro! Há pessoas assim…





Pedro Ferro foi um antropólogo em permanência, para se assumir como ensaísta, poeta, jornalista, professor ou historiador nos outros momentos.
Como cientista do Ser Humano, em particular do Alentejano, ofereceu-nos inúmeras páginas onde com ironia, amargura, revolta, emoção e paixão, nunca contidas, e uma escrita como que talhada no bronze, sempre carregadamente poética, traça um retrato pleno de cumplicidade e de fraternidade com os homens seus irmãos.
Conhecedor do conceito estrutural da formação e do desenvolvimento das sociedades, o Alentejo que descreveu permanece ainda hoje perante os nossos olhares.
A leitura, a reflexão e a crítica dos textos que Pedro Ferro nos legou são uma preciosa ferramenta de análise que nos permite compreender melhor o Alentejo neste tempo vertiginoso de mudanças socioculturais.
Sendo, por natureza, um homem incómodo, controverso, obstinado e corrosivo, desalinhou e desalinhou-se num país adepto do mais ou menos e da palmadinha nas costas, do respeitinho e do cada um no seu lugar. O seu entendimento de coerência e de verticalidade constituiu sempre o seu referencial de acção.
Uma pessoa assim deve persistir na nossa memória colectiva!



alfa