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segunda-feira, julho 20, 2009

foto stefa-zozokovich


Estando a Bela Infanta
no seu jardim assentada,
cum pente de ouro na mão,
cabelos penteava...

domingo, julho 19, 2009

Cantiga, partindo-se


Robert Doisneau, Amor e arame farpado (amor sob a Ocupação Alemã)

Jardim das Tulherias, Paris, 1944



Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo Branco (século XV)




sábado, julho 18, 2009

Instante

Basque Beach, Julho, 1958, Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Washington D.C.







No instante

o voo que se funde das aves

na esfera infinita,

na distância impossível,

feita luz,

feita azul,

no princípio do tempo

compõe lentamente o começo do Mundo.


alfa

terça-feira, julho 14, 2009

Sophia


Sophia de Mello Breyner Andresen




Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso

e outras vezes tosco

Ora me lembra escravos

ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
de luta e de combate
contra o abutre e a cobra
o porco e o milhafre

Pois a gente que tem
o rosto desenhado
por paciência e fome
um país ocupado
escreve o seu nome

E em frente desta gente
ignorada e pisada
como a pedra do chão
e mais do que a pedra
humilhada e calcada

Meu canto se renova
e recomeço a busca
dum país liberto
duma vida limpa
e dum tempo justo.



Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, julho 13, 2009

Caminante

José Boldt, Homem a correr na praia, Ericeira





Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.


Antonio Machado

domingo, julho 12, 2009

Foto in deviantArt





Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.



Maria do Rosário Pedreira

domingo, maio 10, 2009

Porque hoje é Domingo e o coração bate mais apressado no Largo da Bica!


Oh! Esta comoção

de me sentir sozinho

no meio da multidão

- a ouvir o meu coração

no peito do vizinho

Oh! Esta solidão

quente como a camaradagem do vinho!



José Gomes Ferreira, Comício

sexta-feira, maio 08, 2009

O Sonho

http://artyfactory.com/art_appreciation/graphic_designers/abram_games/dali.jpg
Salvador Dali, Aparição de uma cara e de um
fruteiro numa praia,1938



Perante o sonho

no improviso da luz,

no areal disperso,

nos meandros da distância,

na indefinida linha do horizonte,

todo o meu ser se inclina

no regresso das coisas sem medida…

alfa

quinta-feira, maio 07, 2009

Poesia

Ermida de N. Sra. da Represa (Vila Ruiva)


Me duele la ausencia
de mentes mas claras
que nunca por claras
tuvieram morada.
(Luís Eduardo Aute)

terça-feira, maio 05, 2009


Wassily Kandinsky, Composição VII, 1913


Na vertigem das emoções
na persistência dos sentimentos
na solidão das horas
na inquietação do instante
no labirinto da saudade
na amargura dos sons antigos
no horizonte do infinito
no recomeço do instante

permanece
a eternidade do tempo
nas dobras do silêncio.




alfa




sábado, abril 25, 2009

Recordações


Barricada na Ponte de 25 de Abril – Junho de 1975



Guardemos as recordações,

os ideais

e até as dores

que nas noites frias

nos iluminam

pintados de uma cor

(o vermelho),

que é um hino

na estrada que percorremos,

já gasta de tanto uso,

do destino

sempre reconstruído.

alfa




sexta-feira, janeiro 23, 2009

Está na rádio e é linda!


Fico até adormeceres

Se quiseres até nem falo
Oiço só o que disseres
Vem deitar-te no meu colo
E diz tudo o que quiseres
Fico até adormeceres

Se quiseres mando calar
O vento que vem do mar
Rasgando a noite crua
Ou então se preferires
Só para te distraíres
Eu faço dançar a Lua

Fico até adormeceres
Fico enquanto tu quiseres
Fecha os olhos se quiseres
Só até adormeceres

Deita fora as tuas pernas
P'la janela para o rio
Se quiseres eu fico apenas
Até ver se tu serenas
A proteger-te do frio

Fecha os olhos se quiseres
Que hoje tudo que disseres
Nunca sairá daqui

Fecha os olhos se quiseres
Fico até adormeceres...
Que hoje tudo que disseres
Nunca sairá daqui
Fico enquanto tu quiseres
Só até adormeceres...
Que hoje tudo o que disseres
Nunca sairá daqui

Paulo Gonzo

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Lagrimas Negras


Clicar na Imagem para ouvir

Y aunque tu
me has echao en el abandono.
Y aunque tu
has muerto todas mis ilusiones.
En vez
de maldecirte con justo encono
en mis sueños te colmo,
en mis sueños te colmo de bediciones.

Sufro la inmensa pena de tu extravio
siento el dolor profundo de tu partida.
Y lloro sin que tu sepas que el llanto mio
tiene lagrimas negras,
tiene lagrimas negras como mi vida.

Que tu me quieres dejar
que yo no quiero sufrir
contigo me voy gitana aunqe me cueste morir.

quarta-feira, novembro 12, 2008

A Voz de Outono



Ouve tu, meu cansado coração,

O que te diz a voz da Natureza:

— «Mais te valera, nú e sem defesa,

Ter nascido em aspérrima soidão,


Ter gemido, ainda infante, sobre o chão

Frio e cruel da mais cruel deveza,

Do que embalar-te a Fada da Beleza,

Como embalou, no berço da Ilusão!


Mais valera à tua alma visionária

Silenciosa e triste ter passado

Por entre o mundo hostil e a turba vária,


(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)

Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado

Os sonhos ideais que tu sonhaste!» —



Antero de Quental, in "Sonetos

segunda-feira, outubro 20, 2008

Sol de Inverno



Sabe deus que eu quis



Contigo ser feliz



Viver ao sol do teu olhar,



Mais terno.



Morto o teu desejo



Vivo o meu desejo



Primavera em flor



Ao sol de inverno
El Rapto de la Utopía
Julio César Banasco


Sonhos que sonhei



Onde estão



Horas que vivi



Quem as tem



De que serve ter coração



E não ter o amor de ninguém.



Beijos que te dei



Onde estão



A quem foste dar



O que é meu



Vale mais não ter coração



Do que ter e não ter, como eu.



Eu em troca de nada



Dei tudo na vida



Bandeira vencida



Rasgada no chão,



Sou a data esquecida



A coisa perdida



Que vai a leilão.



Sonhos que sonhei



Onde estão



Horas que vivi



Quem as tem



De que serve ter coração



E não ter o amor de ninguém.



Vivo de saudades, amor



A vida perdeu fulgor,



Como o sol de inverno



Não tenho calor.







Jerónimo Bragança

terça-feira, setembro 23, 2008

Ceguei



Ceguei
De tanto te amar e tanto te querer
Ceguei
De te olhar todos os dias e não te ver
Ceguei
De ter o teu cheiro em mim e não te sentir
Ceguei
E tu emudeceste
Porque falo contigo e não me respondes
Porque te beijo e não sentes nada
Porque te estendo a mão e nem sequer a vês
Cegaste…


Retirado do Blogue O Cheiro da Ilha.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Jardim da saudade


Tenho ainda em mim o teu cheiro
o cheiro do amor e sinto-te
como se estivesses aqui
Tenho-te aqui comigo, em pensamento,
e abraço-te e beijo-te e quero-te outra vez
da mesma maneira como nos quisemos
e nos amámos ontem ainda
Olho-te e sorris com esse sorriso maroto
de menino
Nos teus olhos há estrelas que cintilam
e eu já não sei o que faço ou
o que penso, porque tu, com esse teu jeito,
levas-me pela mão para o jardim da saudade...



In o blogue O Cheiro da Ilha que recomendo a sua visita.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Morte completa





Estou morto por dentro

Vivo por fora,

sinto...

Sinto a dor

palpitar no meu interior

Penso...

talvez seja melhor

também ter uma morte exterior...